'É sufocante', diz paciente em fila de 4,6 mil pessoas por cirurgia ortopédica no SUS em Campinas
25/06/2026
(Foto: Reprodução) Campinas tem fila de 4,5 mil pessoas para cirurgias ortopédicas e vira alvo de ação do MP
A dor constante e a dificuldade de locomoção fazem parte da rotina de pacientes que integram a fila de 4.622 pacientes à espera de uma cirurgia ortopédica eletiva pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Campinas (SP).
"É sufocante, dá um desespero na gente", desabafa a aposentada Maria Odete de Moraes, que aguarda pela colocação de uma prótese no quadril para diminuir as dores da artrose.
Sem saber a posição exata na lista de espera, Maria Odete conta que a situação causa angústia e limita a mobilidade dentro de casa. "Às vezes, mesmo com a bengala, eu acabo me apoiando ainda nos móveis e vou fazendo. Não tem como mais, sabe? É muita dor", relata a idosa.
⚠️ O que são cirurgias eletivas? São procedimentos médicos planejados, que não apresentam caráter de urgência ou emergência. Por serem programadas, essas intervenções dependem de agendamento prévio e disponibilidade na rede de saúde.
O sofrimento diário sem previsão de atendimento levou o Ministério Público (MP) a entrar com uma ação na Justiça para obrigar o poder público a apresentar um plano emergencial de redução da fila, que aumentou 24% em sete meses.
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A Prefeitura de Campinas informou que vai acionar a Justiça para pedir a atualização da Tabela SUS Nacional, alegando que os valores estão defasados e não cobrem os custos reais dos procedimentos, especialmente na ortopedia.
O município também defende maior participação da União e do Estado no financiamento da saúde pública e afirma manter como prioridade a redução das filas de cirurgias (veja a nota na íntegra ao final desta reportagem).
A Secretaria Estadual da Saúde afirmou em nota que tem ampliado a oferta de atendimentos na região de Campinas para ajudar a reduzir as filas do SUS, e destacou que a responsabilidade pelas filas municipais é das prefeituras.
Aposentada Maria Odete de Moraes aguarda pela colocação de uma prótese no quadril
Reprodução/EPTV
Medo do futuro
A agente comunitária de saúde Edite Shiavon aguarda por uma cirurgia no menisco no Hospital Mário Gatti desde março do ano passado. Por causa de uma artrose, ela está com o joelho inchado e precisou mudar a forma de trabalhar.
"Estou com várias restrições agora e estou trabalhando sentada. A perna continua doendo, a dor é constante quase", diz.
A espera também traz incertezas sobre o futuro da agente comunitária. "Eu convivo com muita esperança, mas com muita ansiedade. Eu tenho medo de parar numa cadeira de roda, porque eu estou cada dia pior. É desesperador", lamenta Edite.
Agente comunitária de saúde Edite Shiavon aguarda por uma cirurgia no menisco no Hospital Mário Gatti desde março do ano passado
Reprodução/EPTV
O que pede o Ministério Público
O MP-SP pede que TJ-SP obrigue o município e o estado a apresentar, em até 45 dias, um plano emergencial conjunto que inclua:
Cronograma prioritário: atendimento em até 30 dias para quem espera há 48 meses ou mais, e em até 90 dias para quem espera há 20 meses ou mais.
Aumento da produção: medidas para incrementar o número de cirurgias mensais, incluindo mutirões e contratação de serviços privados, se necessário.
Prazo máximo de espera: fixação de, no máximo, 20 meses para a realização de cirurgias em casos futuros.
Transparência da fila: implementação, em até 90 dias, de um sistema público onde o paciente possa consultar sua posição individual e o tempo médio de espera.
Ao final do processo, o MP-SP pede a condenação solidária dos réus para:
Elaboração de um Plano Estrutural: apresentação, em 60 dias, de um diagnóstico detalhado da rede e metas mensais de redução da fila.
Metas de redução: garantia de que a produção cirúrgica supere o ingresso de novos pacientes, eliminando o represamento atual.
Monitoramento judicial: apresentação de relatórios semestrais à Justiça e participação em audiências de acompanhamento para fiscalizar o cumprimento das metas.
O que diz a Rede Mário Gatti
"A Rede Mário Gatti informa que todos os pacientes com indicação de cirurgia ortopédica são acompanhados pelas equipes médicas e inseridos na fila de espera para o procedimento, cuja gestão segue critérios técnicos definidos em resolução da instituição.
As cirurgias são realizadas de acordo com a disponibilidade da rede e obedecem à classificação clínica dos pacientes. Casos de urgência e emergência têm prioridade absoluta, pois envolvem risco à vida ou possibilidade de agravamento imediato do quadro de saúde. Esses atendimentos utilizam os mesmos leitos, salas cirúrgicas e equipes destinados às cirurgias eletivas, o que impacta diretamente o andamento da fila.
Para os procedimentos eletivos, a ordem de convocação considera, entre outros critérios, o tempo de espera e a condição clínica do paciente. A posição na fila pode ser alterada quando houver mudança no quadro de saúde atestada pela equipe médica.
A Rede Mário Gatti mantém o acompanhamento permanente da fila cirúrgica e trabalha para ampliar a capacidade de atendimento, garantindo que a gestão ocorra com critérios técnicos, transparência e prioridade aos casos de maior gravidade".
O que diz a Prefeitura de Campinas
"A Prefeitura de Campinas vai ingressar com ação na Justiça contra o Governo Federal para atualizar a Tabela SUS Nacional, cujos valores pagos pelo Ministério da Saúde estão muito abaixo dos custos reais dos procedimentos realizados pelos municípios. A iniciativa foi motivada pela ação proposta pelo Ministério Público em relação à fila de cirurgias ortopédicas e amplia o debate sobre o financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS).
A medida, conduzida pelo prefeito de Campinas, Dário Saadi, na condição de presidente da Comissão Permanente de Saúde da Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP), foi tema de debate nesta quarta-feira, dia 24 de junho, durante reunião da comissão realizada em Campinas. A Tabela SUS Nacional permaneceu por anos sem atualização compatível com os custos dos serviços e passou a receber apenas recomposição inflacionária a partir de 2024. Na ortopedia, os valores pagos pelo Ministério da Saúde continuam muito inferiores ao custo efetivamente suportado pelos municípios.
A Prefeitura informa que a redução das filas para cirurgias eletivas é uma prioridade permanente da Administração Municipal. Entre 2023 e 2026, o SUS Municipal realizou 79.896 cirurgias, das quais 16.957 foram ortopédicas, volume superior ao registrado em municípios de porte semelhante.
A rede hospitalar municipal, no entanto, atende simultaneamente uma elevada demanda de urgência e emergência. Cerca de dois terços das cirurgias ortopédicas realizadas no período foram de urgência, principalmente em decorrência de traumas, que utilizam os mesmos leitos, salas cirúrgicas e equipes destinados aos procedimentos eletivos.
Levantamento da Prefeitura mostra que, somente entre 1º de janeiro e 25 de maio de 2026, foram registrados 2.700 atendimentos relacionados a acidentes de trânsito, sendo mais de dois terços envolvendo motociclistas. Esse cenário motivou a implantação de uma política municipal de segurança viária, que já resultou em redução de 63% das mortes no trânsito no primeiro trimestre deste ano.
Campinas também é referência regional em urgência e emergência. Historicamente, entre 20% e 25% dos pacientes atendidos pelo SUS Municipal são moradores de outros municípios da Região Metropolitana de Campinas, o que amplia significativamente a demanda pelos serviços.
Como parte das medidas estruturantes para ampliar a capacidade de atendimento, o Governo do Estado construirá o Hospital Metropolitano, que contribuirá para ampliar a oferta de procedimentos de média e alta complexidade em toda a região.
Na ação judicial, a Prefeitura defenderá que União e Estado ampliem sua participação no financiamento do SUS. Hoje, Campinas responde por 71,27% dos recursos aplicados na saúde pública municipal, enquanto a participação federal é de 22,04% e a estadual de 4,11%.
A Administração Municipal reafirma seu compromisso com a redução das filas de espera e defenderá a atualização da Tabela SUS Nacional e um financiamento mais equilibrado do sistema, condição essencial para ampliar a capacidade de atendimento da rede pública".
O que diz o governo estadual
A Secretaria Estadual da Saúde afirmou em nota que tem ampliado a oferta de atendimentos na região de Campinas para ajudar a reduzir as filas do SUS.
Segundo o Estado, mais de 650 leitos foram abertos ou reativados nos últimos anos com apoio do programa SUS Paulista, que aumenta os repasses para hospitais filantrópicos.
Disse ainda que a construção do novo Hospital Metropolitano e o credenciamento do Hospital São Leopoldo Mandic devem ampliar os atendimentos pelo SUS na região. Ressaltou ainda que a gestão das filas municipais é responsabilidade das prefeituras.
Veja a nota na íntegra:
"A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo informa que tem atuado de forma contínua para ampliar a capacidade assistencial da região de Campinas, reduzir filas históricas e apoiar os municípios na organização da rede regional do SUS.
No último ano, a região de abrangência do Departamento Regional de Saúde (DRS) de Campinas registrou 115 mil cirurgias eletivas realizadas, dentro de uma estratégia estadual que levou São Paulo ao recorde de 3,5 milhões de cirurgias eletivas nos três primeiros anos da atual gestão.
Esse avanço é resultado, entre outras medidas, do fortalecimento da Tabela SUS Paulista, programa estadual que complementa os repasses federais e permite que hospitais filantrópicos recebam até cinco vezes mais pelos procedimentos realizados. A iniciativa impulsionou a reativação e abertura de mais de 650 leitos na região ao longo dos três anos da atual gestão, ampliando a retaguarda hospitalar e a capacidade de atendimento para casos clínicos e cirúrgicos. Até março deste ano, mais de R$ 768,5 milhões foram destinados a 104 unidades filantrópicas da região de Campinas.
O Estado também tem realizado investimentos estruturantes para ampliar a oferta de serviços de média e alta complexidade na região. Em Campinas, foi publicado o edital de licitação para a construção do novo Hospital Estadual, com investimento estimado em mais de R$ 550 milhões e 400 leitos previstos.
Também foram destinados cerca de R$ 45 milhões ao Hospital e Maternidade de Várzea Paulista para aquisição de equipamentos e mobiliários, com inauguração prevista para os próximos dias, reforçando a capacidade da rede regional. Em Santa Bárbara d’Oeste, o Governo de São Paulo inaugurou, nesta quarta-feira (24/6), o complexo Cidade Saúde, equipamento municipal para ampliar a oferta de exames e procedimentos especializados a moradores de 19 municípios da Região Metropolitana de Campinas.
Outra medida em andamento é o credenciamento da Casa de Saúde – Hospital São Leopoldo Mandic para prestação de serviços ao SUS. A iniciativa ampliará a retaguarda assistencial da região, e o DRS de Campinas realiza as tratativas finais para formalização da contratação, etapa necessária para o início dos atendimentos.
A SES ressalta que a organização das filas municipais, a gestão dos serviços próprios da rede municipal e a definição da oferta local de procedimentos cabem ao município, conforme as responsabilidades pactuadas no SUS. Ao Estado compete apoiar tecnicamente, regular o acesso conforme critérios clínicos e de disponibilidade da rede, além de investir na ampliação da capacidade regional, como vem sendo feito de forma permanente na região de Campinas.
A Pasta ressalta que a porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) é na atenção básica, nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), administradas pelos municípios, e responsáveis pelo acompanhamento local do paciente, inclusive em suspeita de escoliose. Se necessário, os municípios podem encaminhar o paciente para os serviços especializados estaduais.
Atualmente, as filas de espera para consultas, cirurgias, exames e procedimentos são descentralizadas. A Pasta trabalha para identificá-las e unificá-las, com o objetivo de ampliar os atendimentos e reduzir a demanda de espera, sempre respeitando os critérios de urgência e emergência."
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